Experiências de um Missionário tentando converter Índios ao Cristianismo

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Daniel Everett conta as suas experiências como missionário e as suas tentativas em tentar converter os Índios Pirahãs ao Cristianismo.

Eu nunca deixei de saber que eu era pago pela minha companhia missionária para traduzir a Bíblia para a Língua Pirahã.
O Instituto de Linguística Summer acredita que o melhor modo de evangelizar as tribos indígenas é traduzir o Novo Testamento para a língua deles. No meu tempo livre, eu também conversava com as pessoas sobre a minha fé e porque ela era importante pra mim.

Em uma noite quando a minha família tinha acabado de jantar, e ainda estávamos nos aquecendo de nosso banho no rio Maici, nós fazíamos café para alguns vilarinhos que nos visitavam. Pelo fato dos Pirahã não terem uma palavra para Deus, eu usei o termo “Baíxi Hioóxio”, que significa Pai Superior.
Eu disse a eles que nosso Pai Superior tinha tornado minha vida melhor. Ele entrou no meu coração e me fez feliz.
Kohoi me perguntou uma vez: “O que mais o seu deus fez?” E eu lhe disse: “Bem, ele fez as estrelas, e fez a Terra.” Então perguntei: “O que os Pirahã dizem disso?”
Ele respondeu: “Bom, Os Pirahã dizem que estas coisas não foram feitas.”
“Então eu fui mais fundo e fiz perguntas como: Quem fez o rio Maici? De onde os Pirahã vieram? ”

Mas eu logo comecei a perceber que eles não tinham mitos de criação ou história tradicional. Os Pirahã não falam sobre o futuro distante ou do distante passado. Eles não falam sobre eventos não experimentados ou tópicos ficcionais. Eles vivem apenas para o presente. Uma noite eu decidi contar para eles algo bastante pessoal sobre mim. Que minha madrasta cometeu suicídio, e que isto tinha me levado a Jesus. Os Pirahã caíram na gargalhada. Isso foi inesperado para dizer o mínimo. “Por que estão rindo?, eu perguntei. Ela se matou! Hahaha! Que estúpida! Os Pirahã não se matam, eles responderam.”
Eles não estavam nem um pouco impressionados. O fato de alguém que eu amava ter cometido suicídio não foi de forma alguma uma razão para os Pirahã acreditarem no meu deus. De fato, isso teve um efeito contrário.

Os Pirahã então perguntaram: Hey Dan, como Jesus se parece? Ele é escuro como nós ou claro como você? “Bom”, eu disse: Na verdade eu nunca o vi, ele viveu à muito tempo atrás. Mas eu tenho as palavras dele.
“Bom, Dan, como você tem as palavras dele se você nunca o ouviu ou o viu?”

Eles deixaram claro que se eu de fato não tinha visto este sujeito, eles não estariam interessados em nenhuma história sobre ele. Isso é porque os Pirahã acreditam apenas naquilo que veem. Que grande empecilho para os meus objetivos missionários!
Isso me fez pensar longamente e profundamente sobre os meus propósitos entre os Pirahã.

Em uma manhã eu estava sentado em frente a nossa casa, tomando café junto com muitos Pirahã homens. E Kohoi apareceu: “Hey Dan, eu quero falar com você, ele exigiu. “Os Pirahã sabem que você deixou a sua própria terra, e que você fez isso para nos contar sobre Jesus. Você quer que nós vivamos como os americanos, mas os Pirahã não querem viver como os americanos. Nós gostamos de beber. Gostamos de mais de uma mulher. Mas nós gostamos de você. Você pode ficar entre nós, mas nós não queremos mais ouvir sobre Jesus, certo?” Os outros homens presentes pareciam concordar com ele.
Então eu respondi: “Se vocês não querem Jesus, vocês não nos querem.”
Então, eu expliquei que precisava continuar com meus estudos e os homens se levantaram e foram pescar.

Isso me chocou. E essa informação me apresentou uma clara escolha moral. Eu tinha ido aos Pirahã para contar lhes sobre Jesus. E lhes dar uma oportunidade de escolher a alegria e a fé, sobre o medo e o desespero. Para escolher o céu sobre o inferno. Eu discuti isto com a minha esposa Karen. E nós decidimos que antes de tomar qualquer decisão, faríamos nossa primeira viagem de volta aos EUA após 5 anos. E eu pensei profundamente sobre o desafio do meu trabalho missionário. Eu estava tentando convencer um povo feliz e satisfeito de que eles estavam perdidos. E que precisavam de Jesus como o seu Salvador pessoal.

Quando voltamos da viagem decidimos nos mudar para uma outra aldeia. Nós tínhamos algo novo para oferecer para este grupo de Pirahã. O recentemente traduzido Evangelho de Marcos para a língua Pirahã, gravado com a minha própria voz. Eu trouxe em um gravador de fita, e ensinei os Pirahã como usá-lo. Algumas semanas depois eles ainda estavam ouvindo o Evangelho. Com as crianças tocando o gravador.
Inicialmente eu estava muito empolgado com isso. Até se tornar claro que a única parte do livro que eles prestavam atenção, era a decapitação de João Batista.
“Uau! Eles cortaram a cabeça dele, toque de novo!”

Estava se tornando claro que a mensagem que passei minha carreira e vida nela, não se encaixava na cultura Pirahã.
Eles não se sentiam perdidos e tampouco sentiam a necessidade de serem salvos.
Eles são firmemente engajados aos conceitos de utilidade.
Surpreendentemente isso também ressoou em mim.
A rejeição dos Evangelhos pelos Pirahã me fez questionar a minha própria fé.
Havia tanto sobre os Pirahã que eu admirava, a qualidade da sua vida interior, sua felicidade, seu contentamento.
Os Pirahã tinham construído a sua cultura ao redor do que era útil à sua sobrevivência.
A minha fé parecia irrelevante nessa cultura.
Era superstição para os Pirahã. E começou a parecer casa vez mais como superstição para mim.
Eu comecei seriamente a questionar a natureza da fé e sobre acreditar em algo invisível.

Assim, em torno do final dos anos 80, acabei admitindo para mim mesmo que eu não mais acreditava em nenhum artigo de fé. Ou em nada sobrenatural. Eu era um ateu dentro do armário. E não estava orgulhoso disso, e temia as consequências.
Levou 20 anos para eu alcançar o estágio de estar finalmente preparado para sofrer as consequências da minha desconversão. E, como eu esperava, quando eu finalmente anunciei minha mudança de crença isso teve severas consequências para mim pessoalmente.

É uma decisão muito difícil para qualquer um contar aos seus amigos íntimos e família, que ele não compartilha mais suas crenças fundamentais. No fim, o meu afastamento da religião e a crise epistemológica que a acompanhou, levou à separação da minha família, a coisa que eu mais queria evitar.

Eu fui para os Pirahã quando eu tinha 20 anos de idade. Agora eu sou velho o suficiente para receber descontos de aposentado. Eu dei a minha juventude a eles.
Agora todos os meus netos conhecem os Pirahã. E meus filhos são quem são, em parte, por causa deles.

Os Pirahã me mostraram na dignidade e profunda satisfação em encarar a vida e a morte sem o conforto do céu ou o medo do inferno, e em navegar para o profundo abismo com um sorriso.
E eles me mostraram que por anos eu mantive muitas das minhas crenças sem garantias. Eu aprendi estas coisas dos Pirahã. E eu serei grato a eles enquanto eu viver.

Texto retirado por Ana Burke de um vídeo em inglês do próprio Daniel Everett e traduzido por Luc Anderson.

***

Sobre os Pirahãs

Os pirarrãs ou piraãs, também chamados de pirahãs ou mura-pirahãs, são um povo indígena brasileiro de caçadores-coletores, monolíngues e semi-nômades, que se destacam de outras tribos pela diferença cultural e linguística.

Eles habitam as margens do rio Maici, afluente do rio Marmelos ou Maici, que por sua vez é um afluente do rio Madeira, um afluente do rio Amazonas. Se autodenominam hiaitsiihi, categoria de seres humanos ou corpos que se diferenciam dos brancos e dos outros índios.

Ver mais em: https://hypescience.com/o-misterioso-povo-pirarra-e-o-i…/por

Um comentário sobre “Experiências de um Missionário tentando converter Índios ao Cristianismo

  1. Com teorias de falacias que a maioria vence, todos acabarão cedendo ao cristianismo…
    Depois de variadas repetições sobre a Estória de um menino jesus que morreu por tudo e por todos e que desculpou todos seus inimigos além dos supostos milagres que fez ” até ao ponto de se auto-ressucitar dos mortos” , se cada cultura não se apegar aos seus inscritos com rigor e de peito aberto o Cristianismo triunfará aqui no reino dos cegos.

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