A Morte

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Por Ana Burke

Eu já vi pessoas morrerem e na hora da morte, eu sempre fiquei impressionada com a paz e a serenidade destas pessoas. Alguns sofreram antes em consequência de doenças e diante da expectativa da morte e as minhas observações me levaram a pensar no meu cotidiano e nos problemas e sofrimentos existentes sendo que a maioria é muito mais imaginário do que real. Na realidade, a morte é cultuada e ensinada como um mal. Somos obrigados a olhar o tempo todo para um homem sangrando e sofrendo pendurado numa cruz e isto afeta terrivelmente a nossa mente. Nós vemos nestas imagens, não a morte, mas o sofrimento e a tortura que um ser humano pode impor a outro antes de o matar ou antes que a morte venha. Esta imagem está espalhada em todos os lugares para que você sempre se lembre que a morte é algo terrível e, instalando-se o medo, instala-se automaticamente a submissão e a crença de que você vai adquirir a vida eterna depois de enfrentar tal sofrimento e morrer. Esta imagem está em cada Posto de Saúde, na maioria das escolas, em cada tribunal ou repartição pública, nas praças, lojas, igrejas, dentro das casas e na mente das pessoas.
 
O meu pensamento não é um pensamento “ateu” como pensa os religiosos. É um pensamento resultado de observação. Estamos despertos em aproximadamente 2/3 da nossa vida. Dormimos todos os dias e quando estamos dormindo profundamente, estamos totalmente desapegados de tudo. Não existe mãe, Pai, irmão, casa, carro, dívidas, tormentos, ameaças, chantagens, trabalho, roupas e aparência, fofocas, intrigas, inveja, ciúme, medo, etc. Este é o único momento na sua vida na qual a paz reina absoluta. Será que não poderíamos trazer para os momentos em que estamos despertos este mesmo desapego e esta mesma paz?
 
Se analisarmos uma pessoa no estágio avançado do alzheimer, um tipo de demência, podemos ver de perto o que acontece a alguém que perde as imagens e lembranças que estavam armazenadas no seu banco de memórias. Esta pessoa não sofre. Quem sofre são os cuidadores de tal pessoa mas para ela mesma, não existe mais nada. Não existem obrigações, orações, cruz para carregar, igrejas, Deus ou Satanás, políticas ou políticos, patriotismo, preconceitos, discriminação, violência… Não existe mais mundo ou pessoas. Ela está morta e estar no fim da vida ou se a vida vai continuar ou não, pra ela não faz diferença.
 
O Jesus Cristo crucificado não é nada mais e nada menos do que uma ameaça, uma imagem que inculca o terror psicológico nas mentes simples e para escapar a este terror qualquer ladainha é aceita e qualquer promessa é acreditada. Os bárbaros antigos, e digo antigos porque o barbarismo nunca vai abandonar o ser humano; estes bárbaros quando capturavam um inimigo e este inimigo era um guerreiro respeitável pela sua coragem, eles comiam o corpo deste guerreiro e bebiam do seu sangue. Com isto se acreditava que comendo da carne e bebendo do sangue do mesmo tais pessoas iriam adquirir as características e a coragem de tal guerreiro. O que acontece na Igreja Católica é a reprodução de tais práticas que as pessoas, inconscientemente, adotam como algo bom e saudável. O que se está ensinando a estas pessoas, na verdade, é que elas tem que fazer com as suas vítimas o mesmo, afinal, Jesus era a vítima destas pessoas. Elas o mataram. A carne e o sangue das vítimas devem ser ingeridos. A bíblia dá suporte a esta prática? Sim. Vejamos alguns exemplos:
 
Deuteronômio 28,53: “Na angústia do assédio com que o teu inimigo te apertar, irás comer o fruto do teu ventre: a carne dos filhos e filhas que o Senhor teu Deus te houver dado”.
 
2 Reis 6, 28s: “O rei perguntou a uma mulher da Samaria: ‘Que te aconteceu?’ E ela: ‘Esta mulher me disse: Entrega teu filho, para que o comamos hoje, e amanha comeremos o meu. Cozinhamos, pois, o meu filho e o comemos; no dia seguinte, eu lhe disse: Entrega teu filho para o comermos, mas ela ocultou seu filho”‘.
Lamentações 2, 20: “Vê, Senhor, e considera: a quem trataste assim? Irão as mulheres comer o seu fruto, os filhinhos que amimam? Acaso se matará no santuário do Senhor sacerdote e profeta?”
Ezequiel 5,10: “Os pais devorarão os filhos no meio de ti, e os filhos devorarão os pais (ó Jerusalém!}”.
Jeremias 19,9: “Eu farei que eles devorem a carne de seus filhos e a carne de suas filhas; eles se devorarão mutuamente na angustia e na necessidade com que os oprimem os seus inimigos e aqueles que atentam . contra a sua vida”.
 
Por mais que queiram dar a esta prática um novo significado no Novo Testamento maquiando e deturpando o real significado deste absurdo, está se praticando canibalismo como nos diz o Velho Testamento, sem sombras de dúvida. Não adianta inventar e querer dar um significado mais ameno e aceitável para esta prática. Um deus não pode desmentir o outro ou não são eles o mesmo deus?
 
A morte cultuada e inculcada não tem nada a ver com a morte real, mas com a subserviência, o sofrimento e a humilhação. É aquela que se impõe para firmar a escravidão e está nos rituais repetitivos, nas orações, no rosário, no ajoelhar-se, no abaixar a cabeça, no beijar as mãos e os pés de homens, no dizer amém, nos santos e objetos que supostamente afastam o mal, nas superstições e mitos, etc. A morte divulgada acontece devido à ausência de discernimento, de consciência e de abstração entre o real e imaginário.
 
Repetem muito uma frase de Carl Sagan que diz: ”Nós somos poeira das estrelas.” Bem! Eu penso que não somos apenas poeira. 70% do nosso corpo é água. Nas estrelas podem existir os componentes que formam a água como hidrogênio e oxigênio. Eu não chamaria gases de poeira mas eu entendo o que ele quis dizer com isso e o seu significado. Os materiais que formam o nosso corpo são materiais NÃO VIVOS e estes materiais não vivos fazem a nossa vida. Quando um ser vivo qualquer morre, outros seres vivos como bactérias e fungos entram em ação e ajudam a decompor os materiais que antes formavam o nosso corpo voltando cada um destes materiais para a natureza de onde vieram. A água volta para a atmosfera e vai cair em forma de chuva alimentando outras vidas; os gases se libertam; o ferro, o potássio, o cálcio e outros minerais voltam para o solo, materiais estes necessários para a vida das plantas que nos alimentam. E esta, na minha opinião, é o que podemos chamar de vida eterna; a reciclagem e o reaproveitamento pela natureza de cada um dos componentes do nosso corpo e que vai dar vida a outros corpos.
 
Quando se convive com a finitude como algo natural, não temos mais medo, não somos mais manipulados e estamos libertos. A morte, segundo se acredita, vai tirar de você tudo o que você acumulou durante toda a sua vida. Vai tirar de você a casa que você demorou boa parte da sua vida construindo…isto é apego. É uma ilusão. A sua casa não é sua casa. Você pagou por um pedaço de terra e gastou muito para construir tal casa mas você só pode usar este espaço, a sua casa, se você pagar os impostos obrigatórios e que vão lhe permitir usar este espaço. Mesmo pagando tais impostos, o governo pode dispor dos seus bens como e quando ele quiser ou surgir algum interesse por parte deste. O mesmo acontece com o dinheiro que você acumula em bancos ou poupança.
 
Quando você consegue desapegar em vida das correntes que o prendem você têm a vida e a morte convivendo juntas, pacificamente, tudo é paz e o medo deixa de existir.
 
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Inferno significa SEPULTURA na bíblia…COVA… A história de que o espírito pode se salvar e ir para o céu nunca existiu no Velho Testamento.
 
“Com o suor do teu rosto comerás teu pão, até que te tornes ao solo. Pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás.” Gênesis 3, 19
 
“Tudo caminha para um mesmo lugar; tudo vem do pó e tudo volta ao pó.” Eclesiastes 3, 20
 
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Funeral de Um Lavrador
Chico Buarque
 
Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É a conta menor que tiraste em vida
 
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a parte que te cabe deste latifúndio
 
Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver dividida
 
É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
estarás mais ancho que estavas no mundo
 
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
Porém mais que no mundo te sentirás largo
 
É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada, não se abre a boca.

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