Não Abra a porta da Gaiola

A imagem pode conter: pássaro
Por Ana Burke

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O Ser Humano não sabe em que se apega, ou porque se apega. A única coisa que ele sabe com certeza, é que precisa desesperadamente se apegar, pertencer a alguém, a alguma coisa, a um sistema, a um determinado grupo ou a uma determinada pessoa. A maioria conhece tudo, sabe tudo, e segue o caminho de uma única verdade que tem que coincidir com as suas necessidades de apego. É preciso proteger o objeto do apego, representado por um deus, uma pessoa ou grupo de pessoas porque, sem o objeto do apego, ele está morto, não serve pra nada, e, não é nada.

Quando eu penso e analiso os apegos eu costumo comparar estes apegos a um muro. Quando vivemos cercados por um muro, sabemos tudo, porque podemos observar tudo. Podemos aprender facilmente, tudo, dentro dos limites deste muro, e, como sabemos tudo, somos sábios e possuidores da verdade como nos ensina “A caverna” de Platão. Quanto mais diversificado e mais amplo é o nosso campo de visão mais os nossos sentidos se aprimoram. As imagens captadas pelo nosso cérebro e armazenadas no nosso banco de memórias se transformam em conhecimento, mas um conhecimento que conscientemente sabemos que é limitado. Saber que não sabemos nos faz andar na frente daqueles que sabem e que, por saber que sabem, se acomodam sentindo-se confortáveis e seguros como um pássaro se sente confortável e seguro dentro da sua gaiola.

O pássaro que vive fora da gaiola é mais forte porque usa as suas asas com frequência para voar, caça a própria comida, constrói o próprio ninho, aprende a se defender melhor dos predadores, conhece e sabe o que é bom e o que é ruim, retirando da natureza o conhecimento necessário para se manter vivo. O pássaro que vive solto sabe que não sabe porque o seu mundo é muito grande e é impossível abarcar tudo o que existe na imensidão do seu horizonte. Já o pássaro que vive atrás das grades da sua gaiola sabe e têm certeza de que tudo o que ele acredita que sabe é verdadeiro…e ele têm razão. As duas realidades mostram a cada um, verdades diferentes.

O homem é o deus do pássaro engaiolado. Ele pede pela comida ao homem e depois agradece por esta mesma comida. Agradece também pela moradia e pela água. Ele desaprendeu a voar mas isto não importa muito porque ele não sente mais nenhuma necessidade de voar e só o que faz é pular de um poleiro a outro no caso de a gaiola ter dois ou mais poleiros. Ele também precisa agradar ao seu Senhor e então ele canta…e canta…o canto dos cativos.

Quebrar o muro e nos desvincular dos apegos é praticamente impossível porque isto destruiria todas as nossas verdades, toda a nossa razão de viver, todos os nossos ídolos de barro. Como um pássaro que não sabe mais voar vai se defender? A quem pedir e a quem agradecer? Fora da sua gaiola não existe vida. Um pássaro livre não poderá jamais convencê-lo que há alguns metros de distância existe um rio; peixes, caramujos e insetos que ele nunca viu; uma floresta imensa com árvores gigantes; montanhas; cachoeiras; o mar; outros pássaros; outras vidas e que o canto de um pássaro livre é diferente do canto de um pássaro cativo.

Quebrar o muro ou sair da gaiola não é permitido depois que se está amurado ou engaiolado. O pássaro livre é Satanás. Quando caímos em determinadas armadilhas não existe mais salvação ou salvador. Escalar as montanhas e descobrir o que existe por trás delas, a amplidão, o horizonte, o desconhecido, é uma ameaça maior que o medo da própria morte e como resultado disso, nos enterramos vivos, protegidos pelo muro que construíram ao nosso redor.

Perceber/aprender o que ignoramos significa compreender porque cada deus é único para os seus seguidores. Ao interagir com as coisas do mundo tomamos consciência de que, do lado de fora, por trás do muro, existem milhares de outros deuses, e milhares de outras verdades. O sábio observa e não foge de nenhum ponto de vista diferente do seu; ele pega todas as verdades existentes, das quais toma conhecimento e as coloca em uma peneira juntamente com a sua verdade, peneira tudo e descobre que a maioria das verdades são mitos, incluindo, talvez, a sua verdade. O que sobra, depois de muito trabalho, estudo e análise, é uma mínima porcentagem daquilo que pode ser considerado como sendo a verdade real.

Os nossos apegos nos prendem às tradições, preconceitos e superstições. O desejo e a ilusão de que a morte não existe mata a vida fazendo o ser humano se humilhar e rastejar como se um deus o desejasse e o obrigasse a sofrer, exigindo dele, amor, e temor. Não vejo amor em nada disso, apenas temor, afinal, o preço a pagar para aqueles que vivem dignamente e exigem respeito para si próprio é o castigo eterno. A ordem é sofrer e sofrer muito fazendo trocas com aquele que supostamente é dono do poder: “Eu te pago o dízimo e faço tudo aquilo que me for ordenado como sendo a vontade de Deus mas, por favor, não abra a porta da gaiola. O pior de tudo isso são as crianças. Nós gostamos tanto do conforto da gaiola que condenamos os nossos próprios filhos a viver da mesma maneira. Depois que um pássaro desaprende a voar, ele não terá escolha a não ser se conformar em passar a vida toda no cativeiro…e ainda vai agradecer por isso.

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