O Maior Encobrimento da História

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Tradução: Ana Burke

Facilmente se pode considerar este o maior encobrimento da história. Dura há séculos, tendo sacrificado, primeiro, milhares e depois milhões de vidas. Embora perfeitamente visível, ninguém parece ter reparado nele. Inconscientemente, muitos artistas, grandes e menos grandes, contribuíram para ele. E a camuflagem tem apenas o tamanho de um pequeno pedaço de pano — aquele pano que cobre o ventre de Jesus Cristo crucificado.

No princípio, a cruz nunca era representada na arte ou na escultura e, enquanto Jesus foi adorado pelo seu despojamento e a cruz era o centro da fé, ninguém se atreveu a representá-lo na sua extrema humilhação.

Diz-se que os exércitos de Constantino ostentavam a cruz nas suas insígnias. Isto não era bem assim. O escudo e o estandarte tinham as duas primeiras letras do nome grego de Cristo, fundidas como mostra a segunda descrição no gráfico 2 abaixo:

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Só quando a memória dos milhares que morreram crucificados por todo o mundo romano se desvaneceu é que os cristãos se sentiram livres para representar a cruz como símbolo da paixão de Cristo. Era uma cruz vazia. Quem é que se atreveria a RECRUCIFICAR Cristo?

Mais tarde, este simples símbolo da sua vitória sobre as forças do mal começou a parecer demasiado austero. Os artistaS do século V começaram a pintar uma cruz com um cordeiro junto a ela, porque Jesus era «o Cordeiro de Deus» sacrificado pelos pecados do mundo. Depois, com crescente ousadia, começaram a pintar um Jesus junto da cruz. Só nos fins do século VI, e apenas com duas exceções, é que ele foi representado mesmo na cruz. E ainda assim, o artista não se atreveu a reproduzir a dor e a humilhação. Jesus estava envolto numa comprida túnica e só as mãos e os pés estavam nus para mostrar de maneira estilizada os pregos que o prendiam à madeira.
Era uma imagem de triunfo, ele não estava a sofrer e a morrer, mas a reinar, de olhos abertos e por vezes coroado, no trono da cruz. A primeira representação grega de Jesus em sofrimento na cruz, do século X, foi condenada por Roma como blasfêmia. Mas a Igreja de Roma depressa se rendeu ao seu fascínio.

Com Jesus cada vez mais longínquo e com a teologia medieval cada vez mais seca e mais escolástica, a devoção exigia um Cristo mais humano: um homem que se pudesse ver e quase tocar, um homem com as provações e sofrimentos por que eles próprios passavam em cada dia das suas vidas curtas e sofridas. Os artistas agora representavam livremente Cristo em agonia na cruz; feridas profundas e sangue, agonia em cada membro, abandono no olhar. Reduziram-lhe as vestes para inculcar no espírito dos fiéis a dimensão da humilhação do Senhor. E por aí então chegaram a uma tanga.

Se o artista tivesse ido mais longe, quem teria tido a coragem de olhar Cristo tal como ele estava: NU como um escravo?
O que deteve a mão do artista não foi o decoro, mas a teologia. Não foi culpa dos artistas, afinal, como é que eles poderiam saber que o sofrimento do Cristo recrucificado, sem a verdade última que só a nudez integral conseguiria revelar, causaria uma catástrofe? Ao conceder a Jesus os farrapos finais da decência, aquela tanga, camuflaram a sua condição de judeu. Cobrindo literalmente a sua dignidade, Jesus se tornou um não-judeu honorário. Porque o que aquilo escondia não era apenas o sexo mas aquela cicatriz na sua carne, a circuncisão, que mostrava que ele era judeu. Era isso o que os cristãos receavam ver.

Nas crucificações de Rafael e Rubens, e mesmo nas de Bosch e Grünwald, A TANGA torna-se ornamental; ela cai decorosamente em pregas. Na crucificação de Colmar de Grünwald, diz Husmans, Jesus está curvado em arco; o corpo torturado brilha palidamente, polvilhado de sangue, eriçado de espinhos como a casca de uma castanha da Índia.

O artista parecia dizer, o que o pecado fez a… quem? A Deus, era a resposta da teologia. Isto é a morte de Deus. Quanto mais intensa for a agonia, quanto menos a Sua glória transparece, mais aterradora ela é. «Deus morreu
no Calvário». Isto parece uma boa teologia. Poderia ter sido, não fora aquele pedaço de pano. Porque, ao que parece o artista estava dizendo que alguém era responsável por aquilo que fizeram a Deus. Mas quem? Uma leitura superficial do Evangelho Segundo S. Mateus dá a resposta: os Judeus.
Eles gritaram a Pilatos: «Crucifica-o. Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos». A palavra de Deus parece culpar os judeus contemporâneos e seus descendentes pela Morte de Deus. Os Judeus são, portanto, deicidas. Uma gota daquele Sangue salvaria um milhão de mundos; os judeus derramaram-no todo. Para eles, o Sangue não é a salvação, mas antes uma eterna maldição. Com a sua descrença, os judeus continuam a matar Deus. Tendo assassinado Cristo, eles foram culpados do maior crime que se pode imaginar, eles eram certamente capazes de tudo.
É esta a calúnia. É esta a grande heresia. Por causa disto, as estórias de rituais de judeus assassinando crianças cristãs e bebendo o seu sangue enquadravam-se no padrão estabelecido pelo Crime da Morte de Deus. Essas falsidades ainda circulam por aí.

Sem o encobrimento, sem aquele pedaço de pano, teria sido evidente para toda a gente que o que se passou no Calvário foi também o assassinato de um judeu. Deus era judeu. Não era tanto o fato de os Judeus matarem Deus, mas o de um judeu derramar o seu sangue pelos pecados do mundo. Teriam os cristãos ao longo dos séculos instituído pogroms contra os Judeus em nome da Cruz se nela Jesus ostentasse a marca da circuncisão? Teria um judeu autorizado o massacre de Judeus? Não seria natural que Jesus estivesse presente em todos os pogroms a dizer: «Por que me perseguis? Porque o que fazeis ao mais humilde dos meus irmãos, fazei-o a mim »?
Esse encobrimento, agora com quase vinte séculos, não foi perpetrado por uma seita dissidente, mas pela linha principal da Cristandade, pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Nenhuma outra doutrina foi ensinada mais universalmente e com menos reservas — mais infalivelmente, em termos católicos — do que a que reza que «Os Judeus são malditos por matarem Deus», uma acusação ainda não retirada oficialmente. Numa reviravolta bizarra, os Judeus, donde proveio o Salvador, foram os únicos culpados pela sua morte. Não foi Jesus que foi recrucificado, mas a raça donde ele proveio.

No Terceiro e Quarto Concílios de Latrão (1179 e 1215), a Igreja codificou todas as leis anteriores contra os Judeus. Eles tinham que usar um distintivo da vergonha. Na Inglaterra era cor de açafrão, e com o alegado formato das tábuas de Moisés. Na França e na Alemanha era amarelo e redondo. Na Itália o distintivo era um chapéu vermelho, até que um prelado romano míope tomou um judeu por um cardeal e a cor foi mudada para o amarelo. Aos Judeus era proibido todo o contacto com cristãos, a administração estava-lhes vedada e as suas terras eram-lhes confiscadas, não podiam ser proprietários de lojas e eram arrebanhados para guetos que à noite eram fechados.
Nenhum outro sistema de apartheid foi imposto com tanto rigor. Por se recusarem a negar a sua fé ancestral e a converterem-se ao Cristianismo, os Judeus foram enxotados de uma terra para outra terra. Um papa deu-lhes um mês para abandonarem as suas casas na Itália, ficando eles com apenas dois locais de refúgio. Durante as Cruzadas, eles foram chacinados aos milhares por devoção a Cristo. Um judeu que pusesse o nariz de fora na Sexta-feira Santa estava virtualmente a cometer um suicídio, isto apesar de o Homem na Cruz ter um nariz judeu. Assim, ao longo dos séculos foram milhões os que sofreram e morreram. Uma arte deficiente e uma teologia desastrosa prepararam o caminho para Hitler e a sua «solução final».

Para começar, na Alemanha Nazi pintavam estrelas nas casas e lojas de judeus; era o sinal de que podiam ser destruídas e pilhadas. As cidades gabavam-se, tal como tinham feito nos tempos medievais, de estarem Judenrein, livres da contaminação judia.

Muito tipicamente, nos arredores da aldeia de Oberstdorf havia umas alminhas à borda da estrada com um crucifixo. Sobre a cabeça de Jesus estava a inscrição INLI («Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus»). Em primeiro plano lia-se um aviso: «Juden sind hier nicht erschwüncht» — «Os judeus não são benvindos aqui.»

Em 1936, o Bispo Berning de Osnabrüch esteve a falar com o Führer durante mais de uma hora. Hitler assegurou a Sua Reverência que não havia qualquer diferença fundamental entre o Nacional Socialismo e a Igreja Católica. Não é verdade, argumentava ele, que a Igreja tinha considerado os Judeus como parasitas e os tinham fechado em guetos? «Eu só estou a fazer» gabava-se ele «o que a Igreja fez durante mil e quinhentos anos, só que com mais eficácia». Sendo ele próprio católico, disse ele a Berning que, «admirava e queria promover a Cristandade».
Parece que nunca ocorreu a ele, Hitler, que Jesus, a quem ele se referiu em Mein Kampf como «o Grande Fundador do novo credo», o flagelo dos Judeus, era ele próprio um judeu; e se de facto nunca lhe ocorreu, por que não?

A partir de Setembro de 1941, todos os judeus do Reich com mais de seis anos tinham que usar em público, em sinal de vergonha, a Estrela de David. Por que é que Hitler não obrigou a retirada da tanga de todos os Cristos crucificados em exposição no Reich e que em cada uma delas fosse afixada essa mesma Estrela de David? Teria ele sido tão veementemente promovido a sua qualidade de cristão se só uma vez que fosse tivesse visto Cristo crucificado exatamente como ele era?

Suponhamos que Jesus aparecesse nu em todas as cruzes da Alemanha? Teriam os bispos alemães e Pio XII mantido o silêncio durante tanto tempo se tivessem o seu Senhor crucificado sem a tanga?
Apesar da crueldade cristã, que em certa medida preparou o Holocausto, alguns católicos continuam a dizer que a sua Igreja nunca pecou.
Quinze anos depois de os portões de Auschwitz, Bergen-Belsen, Dachau, Ravensbruch e Treblinka terem sido misericordiosamente abertos, um papa, João XXIII, como que para confundir os críticos que dizem que o papado nunca muda, compôs esta notável oração: «A marca de Caim está-nos estampada na testa. Ao longo dos séculos, o nosso irmão Abel tem estado banhado em sangue que nós derramamos e tem chorado as lágrimas que nós provocámos ao esquecer o Vosso amor. Perdoai-nos, Senhor, pela maldição que nós erradamente atribuímos ao seu nome de Judeu. Perdoai-nos por Vos crucificarmos pela segunda vez na sua carne. Porque nós não sabíamos o que fazíamos.»
Foi uma expiação por mais de uma centena de documentos publicados pela Igreja entre os séculos sexto e vinte. Não há um único decreto conciliar, encíclica papal, Bula ou diretiva pastoral que sugira que o mandamento de Jesus «Ama o próximo como a ti mesmo» se aplicava aos Judeus. Contra toda esta tradição, João o Bom apontou a marca de Caim na sua própria testa. Ele aceitou a culpa da Igreja em derramar sangue judeu ao longo dos séculos e de acusá-los de serem amaldiçoados por Deus. E ainda, comovido, afirmava que a perseguição dos católicos aos judeus resultou na segunda crucificação de Jesus na carne do seu próprio povo. O papa, representante de uma igreja sagrada e infalível, pediu perdão por estes terríveis pecados e erros. A nossa única desculpa, disse ele, foi a ignorância.


Captura de Tela 2017-12-10 às 2.31.02 PM

 

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